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sábado, 29 de junho de 2013

A flor contra a baioneta

Pacifista oferece flores aos soldados, tentando convencê-los a abaixar os rifles. Washington, DC, 1967 (Foto: Marc Riboud)
No dia 21 de outubro de 1967, cerca de 100 mil manifestantes protestaram contra o envolvimento dos EUA na Guerra do Vietnã. O governo convocou 2.500 soldados armados com rifles para a "Marcha sobre o Pentágono", em Washington. Lá estava o fotojornalista francês Marc Riboud, com sua câmera e um último rolo de filme. Num determinado momento ele capturou a célebre imagem de uma pacifista oferecendo flores aos soldados, tentando convencê-los a abaixar os rifles.

Fonte: Fernando Rabelo/Images & Visions

terça-feira, 5 de junho de 2012

O fotógrafo que deu vida à morte



Alemão nascido em Berlim, Horst Faas alterou como poucos o curso da guerra travada pelos Estados Unidos no Vietnã

"Quando um governo fala a verdade, o repórter desempenha um papel de relevância menor. É quando um governo mente que o poder maior do jornalismo se revela”, ensinava David Halberstam, um dos grandes nomes do jornalismo americano da era Vietnã a exercer o ofício com convicção.

Halberstam tinha 28 anos de idade no início da década de 60 quando fez parte do primeiríssimo pelotão de repórteres a desembarcar em Saigon. Na época, a sociedade americana ainda vivia na ilusão de que o conflito no Sudeste da Ásia, que parecia incipiente e se transformaria na pantanosa Guerra do Vietnã, não lhe dizia respeito. “Fui catapultado para um momento e um lugar da história em que ser jornalista fez diferença”, declarou em 1964, ao receber o prêmio Pulitzer.

Junto com Halberstam, quatro outros jornalistas foram se embrenhar no Vietnã para apurar o que havia por trás dos letárgicos comunicados das Forças Armadas dos Estados Unidos. Neil Sheehan e Malcolm Browne eram americanos. O ebuliente Peter Arnett era neozelandês. E Horst Faas era alemão, como denunciava o forte sotaque do qual nunca se desvencilhou. Como editor de fotografia da agência noticiosa Associated Press em Saigon, Faas é considerado até hoje o mais completo fotojornalista de guerra.

Cada integrante desse celebrado núcleo duro recebeu pelo menos um prêmio Pulitzer nos anos que se seguiram. Individualmente, porém, o trabalho do berlinense Faas foi o mais decisivo. Foi ele, sobretudo, quem encurtou a distância entre a sala de jantar do cidadão americano e a crueza da guerra do outro lado do mundo.

Até então o povo vietnamita era uma abstração de olhos puxados. Faas lhe deu humanidade individual. Com suas três câmeras Leica sempre penduradas no pescoço, conseguiu captar silêncios, nuances de medo, pavor, dor e resignação. Traduziu temperaturas, cheiros, texturas. Tudo sem vestígio de retórica fotográfica. Simplesmente aproximou a nação americana da vivência da guerra travada em seu nome.

Horst Faas morreu no dia 10 do mês passado em Munique, aos 79 anos. Estava paraplégico desde 2005, consequência de um coágulo na coluna vertebral detectado em Hanói, durante um dos concorridos seminários de fotojornalismo de que participava mundo afora. Continuou a promover simpósios e a escrever livros sobre o métier até o fim da vida. Halberstam, que morreu num acidente de carro em 2007 e era pouco dado a efusões verbais, definiu assim seu antigo companheiro de alojamento em Saigon: “Não consigo me lembrar de ninguém que permaneceu mais tempo, correu mais riscos e demonstrou maior devoção ao trabalho e aos colegas do que ele. Eu o definiria como nada menos do que um gênio.”

O talento de Horst Faas com uma câmera na mão é fácil de atestar: basta olhar para as fotos de sua autoria. Mais difícil é dimensionar corretamente o papel que desempenhou debruçado sobre uma mesa de luz, como editor de fotografia da AP. Esta talvez tenha sido sua obra mais decisiva para o registro da história.

Coberturas de guerra, assim como de acidentes, chacinas e tragédias em geral, podem dar fama imediata ao fotógrafo que captar um instantâneo de impacto. Nas mesmas circunstâncias, o trabalho do editor, por ser anônimo, tende a ser particularmente ingrato. Além de operar à sombra da produção alheia, o titular do cargo com poder de decisão sobre quais fotos publicar e quais descartar raras vezes é contemplado com o apreço de seus subordinados.

A atuação do alemão Faas na redação da AP em Saigon, instalada no 4º andar de um prédio da rue Pasteur, foi tão singular quanto sua safra de fotos próprias. Ao longo de mais de dez anos, ele arregimentou, treinou e comandou uma eclética plêiade de retratistas da guerra. Gostava de garimpar talentos novos junto à população civil local. Munia-os com rolos de filmes e câmeras e ensinava-os a olhar e ver, antes de despachá-los para a rua. Repassou os rudimentos de fotografia com os repórteres mais consagrados do staff da AP e determinou que todos deveriam ter uma máquina à mão. Sempre.

Essa norma violava a lei trabalhista americana que proibia jornalistas de executar tarefas de fotógrafos, mas acabou prevalecendo como exceção no Vietnã. E foi graças a ela que o correspondente Malcolm Browne sacou sua câmera numa manhã de junho de 1963 e conseguiu registrar a primeira autoimolação de um monge budista em protesto contra o regime sul-vietnamita apoiado pelos Estados Unidos.

A cena do monge na posição Flor de Lótus, queimando impassível até a morte, no meio da rua, sem proferir um único som, durou segundos. Para Browne, uma eternidade. Até hoje ele se debate com o fato de ter apenas fotografado a cena, sem impedir seu desfecho. Mas foi essa foto, em parte, que levou a Casa Branca de John F. Kennedy a repensar seu apoio público ao ditador Ngô Ðình Dim.

Faas tinha sido ferido nas pernas por uma granada em 1967, durante uma incursão à região sul do Vietnã, e por isso ainda convalescia quando a maciça Ofensiva do Tet lançada pelos guerrilheiros comunistas em 1968 chegou a Saigon. Até então era preciso sair a campo para retratar a guerra. Com o ataque do Tet, a guerra chegou à soleira da porta da AP e Faas dirigiu toda a cobertura trabalhando de muletas.

Foi no meio do segundo dia de confrontos em Saigon, 1º de fevereiro de 1968, que o veterano Eddie Adams, um ex-fuzileiro da Guerra da Coreia, adentrou a agência e esvaziou sua safra de rolos de filme. O último negativo, uma vez revelado no banheiro da redação transformado em câmara escura, entrou para a história da fotografia de guerra com o título de Execução em Saigon. Mostrava o chefe de polícia de Saigon, general Nguyn Ngc Loan, uniformizado e de braço estendido, disparando à queima-roupa contra a têmpora de um sul-vietnamita de camisa xadrez, que tinha as mãos amarradas nas costas. A foto capta o instante em que a bala entra na cabeça do prisioneiro vietcongue.

Naqueles tempos, a transmissão de uma única imagem levava em média vinte minutos e era feita por meio de um circuito de radiotelefonia via Paris – isso, quando não caía a linha e era preciso retomar do zero a transmissão.

Ao ver a foto, o repórter Peter Arnett parou de datilografar uma matéria na sua máquina de escrever e começou a entrevistar o autor da imagem que mudaria o curso da guerra. Eddie Adams, falecido sete anos atrás, posteriormente sustentou que o instantâneo demonizou injustamente o militar sul-vietnamita, por ser um falso retrato do bem contra o mal, já que as circunstâncias por trás daquela cena eram muito mais complexas (o vietcongue teria decapitado vários civis sul-vietnamitas).

Em 1972, quando a percepção do atoleiro vietnamita como cemitério de vidas já parecia inteiramente assimilada pela opinião pública americana, HorstFaas conseguiu sacudi-la uma vez mais.

Entre os mais de setenta jornalistas que morreram cobrindo a guerra do Vietnã estava Huỳnh Thành M, um ator a quem Faas tudo ensinou e transformou em fotógrafo. Seu irmão caçula, Huỳnh Công Út – mas apelidado por Eddie Adams deNick Út e é com esse nome que entraria para a galeria dos grandes –, decidiu então juntar-se à tropa de Faas. É de sua autoria a imagem mais do que célebre de uma menina nua numa estrada de terra. Ela corre com os braços abertos e a pele em frangalhos pela ação das bombas de napalm made in usa.

Foi graças ao pulso de Faas que o mundo viu a foto – o editor alemão decidiu atravessar a hierarquia de comando da AP e assumiu a responsabilidade de transmitir a fotografia, considerada polêmica demais pela chefia da agência.

Nascido nos anos de ascensão de Hitler e membro adolescente da Juventude do Führer, Horst Faas sabia, como Halberstam, que o poder do jornalismo acaba sendo maior do que o de um governo que mente.

Fotos feitas por Horst Faas na Guerra do Vietnã

"Para mim essa foto aponta a essência da guerra do Vietnã", explicou. "Ela não retrata nenhum fato relevante. É apenas um soldado morrendo nos braços de outro. Eu a fiz com o olhar cristão, vendo uma Maria amparando o Filho moribundo."

Faas entendia que não era preciso fotografar combates para retratar os horrores da guerra. Nesta foto tirada no primeiro dia do ano de 1966, mulheres e crianças sul-vietnamitas se esgueiram por um canal a menos de 50 quilômetros de Saigon, escoltadas por paraquedistas americanos. Todos tentam escapar de intenso ataque vietcongue

Catorze anos antes do épico 'Apocalypse Now', de Francis Coppola, Horst Faas captava a mecanização da guerra. Nesta foto de 1965, helicópteros dão cobertura a um ataque da infantaria contra um posto vietcongue, na fronteira com o Camboja

Em junho de 1965, após dois dias de bombardeios ininterruptos, o exército de Saigon conseguiu recapturar um posto inimigo em Dong Xoai

Em meio aos corpos de 150 civis e 300 soldados sul-vietnamitas, o horror dos sobreviventes

Horst Faas sempre buscou uma linguagem universal para suas fotos. Nesta cena, tanto o pai camponês como os Rangers são sul-vietnamitas. Mas poderiam ser vietcongues. Morte é morte
 

domingo, 3 de junho de 2012

Foto da guerra completa 40 anos e marca vida da vítima


Foto:Huynh Cong 'Nick' Ut

Nenhuma guerra produziu tantas imagens e mexeu com os sentimentos e a opinião pública mundial quanto a Guerra do Vietnã (1959-1975). E nenhuma foto, entre os milhares de registros dos campos de batalha, ficou tão profundamente gravada na memória das gerações que vivenciaram o horror daquele conflito quanto a das crianças correndo por uma estrada, tentando escapar de um bombardeio. No centro da cena, uma menina magra, nua, desesperada, ferida.  Esta semana, aquela foto estará completando 40 anos.

Era 8 de junho de 1972, no Vietnã, e o fotógrafo Huynh Cong 'Nick' Ut viu algumas crianças correndo, tentando escapar de seguidas explosões na vila de Trang Bang, na província de Tay Ninh. Ele não pensou duas vezes antes de fotografar a cena.

A garotinha de 9 anos, nua, gritando "muito quente, muito quente", enquanto tentava escapar das bombas, era Kim Phuc entre o irmão mais novo, Phan Thanh Phouc, que perdeu um olho, e dois primos, que aparecem de mãos dadas, Ho Van Bon e Ho Thi Ting.

A imagem tornou-se um dos símbolos da Guerra do Vietnã. Kim Phuc está com 49 anos e diz que a foto a perseguiu a vida inteira. "Eu realmente quis escapar daquela menina", diz Phan Thi Kim Phuc. "Eu queria escapar dessa imagem, mas parece que a foto não me deixou escapar", disse ela, que hoje comanda uma fundação para ajudar crianças vítimas da guerra. "Eu fui queimada e me tornei uma vítima da guerra, mas crescendo, tornei-me outro tipo de vítima", completa ela.

Ao relembrar o momento em que a foto foi tirada, ela diz ter ouvido fortes explosões e que o chão "tremeu". "Eu vou ficar feia, não serei mais normal. As pessoas vão me ver de um jeito diferente", ela diz ter pensado na hora, ao perceber que sua mão e braço esquerdos estavam queimados.
Em choque, ela correu atrás seu irmão mais velho e não se lembra de reparar nos jornalistas estrangeiros reunidos enquanto corria na direção deles, gritando. Depois disso, ela perdeu a consciência.

Foto do grupo de criança tentando escapar de um bombardeio de uma aldeia vietnamita, em 1972, foi uma das imagens mais chocantes do conflito nosudoeste asiático.

"Eu chorei quando a vi correndo", diz Ut, que cobria a guerra pela Associated Press. "Se eu não a ajudasse e alguma coisa acontecesse que a levasse a morte, acho que eu me mataria depois", comenta o fotógrafo, que nunca mais deixou de falar com Phuc. Ele a deixou em um pequeno hospital e fez os médicos garantirem que tomariam conta da garota.

A foto foi publicada e, alguns dias depois, outro jornalista, Christopher Wain, um correspondente britânico que tinha dado água de seu cantil a Phuc, descobriu que ela tinha sobrevivido. A garota tinha sido transferida para uma unidade americana em Barsky, única instalação em Saigon equipada para lidar com ferimentos graves.

"Eu não tinha ideia do que tinha acontecido comigo", diz Phuc. "Acordei no hospital com muita dor e com enfermeiras ao meu redor. Acordei com um medo terrível". "Toda manhã, às 8 horas, as enfermeiras me colocavam em uma banheira com água quente para cortar toda a minha pele morta. Eu só chorava e quando eu não aguentava mais, desmaiava", relembra ela que hoje vive com o filho e o marido, Bui Huy Toan, no Canadá.

Depois de vários enxertos de pele e cirurgias, Phuc foi finalmente autorizada a deixar o hospital, 13 meses após o bombardeio. Ela tinha visto foto de Ut, que até então tinha ganhado o Prêmio Pulitzer, mas ainda não sabia do alcance e poder da imagem.

"Fico muito feliz em saber que ajudei Kim", disse Ut, que ainda é fotógrafo da Associated Press. "Eu a chamo de minha filha", brinca. "A maioria das pessoas conhece minha foto, mas sabe pouco sobre minha história", diz Phuc. "Fico agradecida por poder aceitar essa foto como um presente. Com ela, eu posso usá-la para a paz." 

O que foi

A Guerra do Vietnã foi um conflito armado ocorrido no Sudeste Asiático entre 1959 e 30 de abril de 1975. A guerra colocou em confronto, de um lado, a República do Vietnã (Vietnã do Sul) e os Estados Unidos, com participação efetiva, porém secundária, da Coreia do Sul, da Austrália e da Nova Zelândia; e, de outro, a República Democrática do Vietnã (Vietnã do Norte) e a Frente Nacional para a Libertação do Vietname (FNL). A China, a Coreia do Norte e, principalmente, a União Soviética prestaram apoio logístico ao Vietnã do Norte, mas não se envolveram efetivamente no conflito.

Em 1965, os Estados Unidos enviaram tropas para sustentar o governo do Vietnã do Sul, que se mostrava incapaz de debelar o movimento insurgente de nacionalistas e comunistas, que se haviam juntado na Frente Nacional para a Libertação do Vietname (FNL). Entretanto, apesar de seu imenso poder militar e econômico, os norte-americanos falharam em seus objetivos, sendo obrigados a se retirarem do país em 1973 e dois anos depois o Vietnã foi reunificado sob governo socialista, tornando-se oficialmente, em 1976, a República Socialista do Vietnã.