terça-feira, 8 de outubro de 2013

O Poder da Fotografia

Robert Draper

“Fotógrafos usam suas câmeras como ferramentas de exploração, passaportes para santuários, instrumentos de mudança. Suas imagens são a prova de que a fotografia é importante – agora, mais que nunca!”

Trinta e quatro anos antes do nascimento da Revista National Geographic (em 1888), o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard amargamente profetizou um destino banal para a arte recém-popularizada da fotografia: “Um dia, todo o Mundo poderá ter o seu retrato gravado para sempre e ao mesmo tempo tudo está sendo feito para que todos sejamos iguais.”

Quando surgiu a Sociedade National Geographic, a sua principal missão não foi testar a teoria de Kierkegaard mas sim partir para a exploração do Mundo – apesar de as cinzentas páginas do seu jornal oficial não representarem propriamente uma orgia visual. Só depois de vários anos de existência, os exploradores da National Geographic começaram a usar câmeras para oferecer aquilo que é hoje o seu principal motivo de fama: historias fotográficas que alteram a percepção do Mundo e muitas vezes mudam a vida das pessoas.

Congelando partículas de espaço e tempo, um grande fotógrafo consegue fazer com que vejamos o Mundo de uma forma diferente para todo o sempre. Afinal, como Kierkegaard também escreveu: “a verdade é uma armadilha: você não a pode ter sem a capturar.”

Hoje a fotografia é uma cacofonia de momentos congelados. Milhões de fotografias são tiradas a cada minuto. O que distingue os fotógrafos da National Geographic é muito mais do que apenas as suas escolhas pessoais (que tipo de lentes para que tipo de luz para que momento específico). Afinal, as suas melhores imagens lembram-nos que uma fotografia tem o poder de documentar algo para sempre – ela nos transporta para um Mundo nunca antes visto.

E esse resultado apenas é conseguido devido à sua feroz determinação em contar uma história através de imagens transcendentes. Longe de casa por muitos meses, perdendo aniversários, férias e outros momentos importantes, esses fotógrafos acabam sendo embaixadores “não desejados” em países hostis ao Ocidente. Muitas vezes sentados em uma árvore por uma semana ou comendo insetos ao jantar – com uma capacidade de suportar a miséria sempre com um sorriso na cara. Se há algo que todos esses fotógrafos têm em comum é a fome do desconhecido, a coragem de ser ignorante e a sabedoria de o reconhecer.

O fruto deste comprometimento pode ser visto em suas fotografias, o que não pode ser visto é o seu sentido de responsabilidade para com aqueles que se atrevem a abrir suas portas para um estranho. É muito mais arriscado e leva muito mais tempo conseguir uma fotografia fruto da colaboração entre duas almas em lados opostos da lente do que uma fotografia manipulada e premeditada.

Consciência é outro dos traços destes fotógrafos. Presenciar a beleza de focas nadando no Golfo de St. Lawrence é também ver a fragilidade de seu habitat: centenas de filhotes de focas se afogam devido ao colapso de blocos de gelo provocado pelo aquecimento global. Testemunhar a calamidade da guerra nas regiões de mineração de ouro da República Democrática do Congo é também vislumbrar um pouco de esperança: mostrar aos comerciantes de ouro na Suíça o que a sua especulação tem feito e talvez fazê-los repensar suas ações.

Nos últimos 125 anos, se provou que Kierkegaard estava certo e errado sobre a fotografia. As imagens da National Geographic revelam um mundo não de mesmice, mas de diversidade maravilhosa. Mas elas também têm, cada vez mais, documentado sociedades, espécies e paisagens ameaçadas pelo nosso desejo de homogeneização.

Claro, cada fotógrafo profissional deseja a fotografia épica, a colisão “once-in-a-lifetime” de oportunidade e habilidade que dá à fotografia entrada instantânea no panteão ao lado de Iwo Jima de Joe Rosenthal, Jack Ruby matando Lee Harvey Oswald de Bob Jackson, ou as cores radiantes do planeta Terra retratadas pelos astronautas da Apollo 8. E contudo, a fotografia mais emblemática de sempre não é de alguém ou algum momento histórico. Pelo contrário, é de Sharbat Gula, uma menina Afegã de, talvez 12 anos quando o fotógrafo Steve McCurry encontrou ela em 1984, em um campo de refugiados no Paquistão. O que seus intensos olhos verde-mar disseram ao mundo a partir da capa da edição de junho da National Geographic em 1985 é algo que mil diplomatas e trabalhadores humanitários não teriam conseguido de jeito nenhum. O olhar da menina Afegã perfurou em nosso subconsciente coletivo e parou um mundo ocidental desatento da realidade. Aqui aconteceu a armadilha da verdade. Nos apegamos a ela instantaneamente e não mais conseguimos ignorar ou não querer saber.

McCurry tirou essa fotografia imortal bem antes da proliferação da Internet e da invenção do smartphone. Em um mundo aparentemente entorpecido por uma avalanche diária de imagens, conseguem estes olhos ainda nos dizer algo urgente sobre nós mesmos e sobre a beleza ameaçada do mundo em que vivemos? Eu acho que a pergunta se responde a si mesma.

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