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| Criança em Projeto Social em Teresópolis em 2008(Foto:Franscisco Valdean/Imagens do Povo) |
Quando se fala em favelas é "difícil desconstruir estereótipos de violência e pobreza". Mas, de acordo com alguns profissionais, isso é necessário. "Temos que começar a quebrar algumas coisas que não são verdades. É um investimento na beleza, na fé, no amor, no acreditar", diz o fotógrafo João Roberto Ripper. Para ele, quando não se mostra a beleza, "a sociedade aceita esses estereótipos".
Fotógrafo há quase 40 anos, Ripper colocou a fotografia a serviço dos Direitos Humanos, não apenas para denunciar, mas também "mostrar a beleza e o que fazem as pessoas que sofrem censura e exclusão social, pra ajudar a não construir estereótipos". Especialista na fotografia documental, social e fotojornalismo, ele ilustrou o Ensaio da edição de outubro da Revista IMPRENSA [272, pág. 66], e falou sobre o 'Imagens do Povo', centro de documentação, pesquisa, formação e inserção de fotógrafos populares no mercado de trabalho, que criou em 2004, como parte do programa sócio-pedagógico do Observatório de Favelas, na Favela da Maré, zona norte do Rio de Janeiro. "O projeto tinha uma proposta política de quebrar com o estereótipo que as favelas vivem, da violência e da ausência, e de mostrar a favela pelo que de belo ela faz", explica.
Entre os principais projetos do 'Imagens' estão a Agência Escola, a Escola de Fotógrafos Populares (certificado como curso de extensão pela Universidade Federal Fluminense), o Banco de Imagens, o Curso de Formação em Educadores da Fotografia, as Oficinas de Fotografia Artesanal (Pinhole) e a Galeria 535. Todo o Programa é gratuito, voltado às pessoas que não têm condições de pagar cursos na área, e também atende outras regiões do Grande Rio.
"São quatro horas de aulas diárias, durante 10 meses, além das saídas. Cada um vai ter um aproveitamento, tem pessoas que aproveitam mais, outras menos, não tem como controlar isso. Há muitos casos que faz diferença ter essa oportunidade", explica a coordenadora do 'Imagens do Povo', Joana Mazza.
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| Bailarina durante apresentação no bairro de Santa Tereza em 2009(Francisco Valdean/Imagens do Povo) |
Francisco Valdean é um exemplo disso. Valdean, como gosta de ser chamado e assina suas fotos, nasceu no povoado de Cachoeira Grande, no Ceará, mas, aos 15 anos, mudou-se para a Favela da Maré, no "rodo do êxodo rural", buscando uma vida melhor. "Sempre quis estudar e lá não era possível", conta. Aos 23 anos, ingressou na primeira turma da Escola de Fotógrafos Populares. "Houve a divulgação da turma, eu tinha o perfil e interesse por fotografia. Na época, trabalhava como auxiliar de serviços gerais, e fazia alguns cursos na área de informática". Valdean foi monitor de sua turma, continuou no projeto e hoje, aos 30 anos, é gerente do banco de 'Imagens do Povo', e está no último ano de Ciências Sociais na Universidade Estadual do Rio e Janeiro (UERJ).
Assim como ele, a equipe de fotógrafos da Agência Escola é composta, basicamente, por ex-alunos da Escola de Fotógrafos Populares, que, além de produzirem pautas variadas encomendadas à agência, encaminham suas imagens para o Banco de Imagens do Programa. "Hoje, temos 35 colaboradores oficiais e o tema do nosso trabalho não é fechado, mas o foco são os Direitos Humanos, o cotidiano nas favelas etc", diz Joana.
Além da Escola e da Agência, as Oficinas de Pinhole são voltadas às crianças e adolescentes, entre nove e 16 anos. O objetivo é apresentá-las ao universo fotográfico de forma lúdica, através da técnica de fotografia artesanal, em que se constroem as câmeras, e revelam no laboratório suas fotografias. Já a Galeria 535, além de mostrar exposições do 'Imagens do Povo', "traz exposições de ensaios que de certa forma dialoguem com o projeto. Tivemos exposições de fotógrafos com reconhecimento internacional, como Gui Veloso, Alexandre Sequeira e Anna Kahn", explica Joana. Do 'Imagens' foram expostas duas coletivas: "Caçadores de Sonhos", em 2010, e "Prazer, sou do Povo", em 2011. A primeira individual de um fotógrafo do programa foi a "Em nossas mãos", do Fábio Caffé, e a próxima será da Elisângela Leite, a ser inaugurada em novembro.
Ao longo desses anos, o Programa formou cerca de 200 fotógrafos na Escola e 22 educadores, além de ter em torno de de seis mil imagens no Banco e, só em 2011, cerca de 100 alunos nas Oficinas de Pinhole. Mas o 'Imagens do Povo' enfrenta dificuldades para manter-se funcionando. A última turma da Escola de Fotógrafos Populares, por exemplo, formou-se em 2009 e, atualmente, busca patrocínio para abertura de novas vagas, assim como o Curso de Formação de Educadores em Fotografia, que formou sua primeira turma em dezembro de 2010, com técnicas de ensino e conteúdo de nível avançado, para potenciais agentes multiplicadores do ensino da fotografia em áreas populares. "Esses campos de educação, cultura, são muito difíceis no Brasil. Ganhamos vários prêmios de reconhecimento pelo trabalho realizado, mas é difícil conseguir patrocínio para continuar", explica Joana. Apesar das dificuldades, em janeiro de 2012, o Programa completa oito anos, oferecendo a técnica e o convívio com o universo da fotografia.
Para Ripper, a técnica é apenas um dos elementos fundamentais na fotografia, e não há um grande segredo, é antes "olhar a luz, sentir as pessoas, e perceber que elas são muito mais importantes". Foi o que ele fez em sua carreira, através de suas fotos e no 'Imagens'. Ajustou o foco nas pessoas, formando outros fotógrafos para irem além dos ângulos que a sociedade quer enxergar.


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